À beira do ano: o imperativo do viver
Marcelo Ribeiro
Não me lembro de ter sentido medo em viradas de ano anteriores, mais especificamente diante da passagem para o ano vindouro. Contudo, neste finalzinho do ano se anuncia para mim com um certo temor[1]. O que poderá acontecer de ruim, de desastroso, de fúnebre, de enfermidade, de crise?
Não me refiro a algo mais ou menos trivial, daqueles acontecimentos que constituem os “baques” cotidianos que vamos administrando ao longo da vida. Dou um exemplo. Um tempo atrás perdi minha mãe protetora e, dois anos depois, meu pai-herói se foi. Cinco meses antes da sua partida, havíamos comemorado seus 80 anos. Mas quem diria que, na virada do ano para outro, no afã do réveillon, na efusiva comemoração, poucos meses depois a foice da morte visitaria a nossa família?
Situações como essas, além de tantas outras semelhantes que me sucederam, parecem me deslocar para uma experiência inusitada em relação à virada de ano. Antes, eram pensamentos e vibrações — como se costuma dizer — “positivos”. A espera era sempre por algo bom, sem temor ou preocupação. Desta vez, não. Experimento agora uma suave apreensão. Um medo leve. Um temor do que poderá acontecer.
Essa espécie de suspense pode estar relacionada ao próprio envelhecimento e às circunstâncias da natureza, pois há uma tendência, à medida que ficamos mais velhos, de vivenciarmos perdas de pessoas próximas. Nossas referências, nossos “vínculos humanos”, vão desaparecendo, ao menos no plano físico da convivência. Talvez esse gosto pelo “grave” seja algo mais típico da velhice do que da juventude.
Evidentemente, esse temor que se anuncia em mim não é, de forma alguma, um desejo mórbido. Talvez seja, no máximo, uma insegurança — mas uma insegurança que traz consigo certo grau de plausibilidade. Afinal, não é provável que apenas coisas boas aconteçam a alguém ao longo de um ano. Coisas difíceis certamente acontecem, e até coisas terríveis podem acontecer. Em algum momento, isso vai ocorrer: este ano, no próximo ou em algum outro.
Reconheço que toda essa conversa pode soar como um pessimismo diante da vida. Por outro lado, não me parece exagerado. Trata-se de algo da ordem do inescapável da própria existência. O fim, o ponto final, a morte, a perda, a dor, o luto — tudo isso envolvendo pessoas que amamos e, inclusive, a nós mesmos — é condição de entrada e permanência neste mundo.
Sileno, personagem mítico da antiga Grécia, dizia que nunca ter nascido seria uma opção já inalcançável para os viventes — e, portanto, para os mortais. Logo, morrer já está dado. A questão que então se coloca é: vale a pena viver?
Se vamos morrer nesta vida breve e se, inevitavelmente, sofreremos a perda de pessoas queridas, a vida — com todo esse sofrimento inerente e sua base na finitude — vale a pena? Se tivéssemos a opção de não nascer, que escolha faríamos?
Contudo, se estou aqui a escrever, e se você está aí a ler, e se todo esse diálogo está acontecendo, é porque não tivemos essa opção. Nascemos. Ainda estamos aqui. Talvez, então, a pergunta “vale a pena viver?” não seja a mais adequada. Prefiro o imperativo do meu amigo Fernando de Freitas Franco: fazer esta vida valer a pena. Fazer valer a pena viver.
Não sei se, no plano da abstração ou da metafísica, a vida vale ou não a pena. Sei que, em alguma medida, posso fazer valer a pena viver. Ainda que na dor, ainda que na perda.
Evidentemente, esse “fazer valer a pena viver” não significa sair por aí feito uma besta-fera, atropelando tudo, vivendo de maneira abusiva, irresponsável e inconsequente. Fazer valer a pena viver tem mais a ver com saber habitar o presente precioso da vida — o momento, o instante, o agora que se renova continuamente e que é a própria vida em seu movimento criativo e em suas belezas espetaculares. Uma afirmação das belas ilusões – afinal, a falta de vitalidade é uma perda de ilusão, uma desilusão. No limite a não esperança. A desesperança, o desespero. Até porque, esse desespero, ainda que possa ajudar ao “temor e tremor” que nos acorda, tem relação com o esgarçamento das relações e rupturas com dimensões éticas de solidariedade. A vida, a força vital, não se esgota em mim.
Isso dialoga muito com a canção “É”, de Gonzaguinha, que traz perspectivas profícuas — inclusive políticas — de um estar no mundo mais solidário e menos injusto. Saber viver e fazer valer a pena a vida também se relaciona profundamente com um caminhar regado pelo prazer do simples, pela gratidão, pelo perdão e, sobretudo, pela força transbordante do amor.
A caminhada do saber e do fazer valer a pena nos conduz por caminhos de realização e, ao chegar ao final da estrada, talvez possamos esboçar aquele sorriso sereno de quem reconhece: valeu a pena viver.
Assim, esse temor que experimento diante da virada do ano não é algo do qual eu queira fugir. Tenho esse medo. Sinto essa insegurança. Não a desejo, mas reconheço sua possibilidade — como alguém que sabe o que acontece, mais cedo ou mais tarde, ao nascer.
E, ao lado desse temor que me acompanha rumo ao ano novo, desejo saber e fazer valer a pena viver, cultivando ainda mais a gratidão, aprendendo a atravessar o processo do perdão, desejando um mundo mais solidário e menos injusto, afirmando a vida na potência exuberante do simples e buscando seguir, cada vez mais profundamente, o caminho do amor.
E para você, como esse ano se anuncia?

Bela reflexão! E reconforta saber que a sensação de insegurança não é só minha. Para mim o ano se anuncia como avanço de ameaças, sobretudo da desvalorização do ser humano frente às inovações da inteligência artificial. Mas continuo acreditando que a força do amor, leia-se empatia, é o diferencial para fazer valer a pena viver.
ResponderExcluirEssa tensão há o tempo todo.... os receios e ao mesmo tempo a fá e a aposta no amor...
ExcluirGratidão por tão rica reflexão. Marcelo Ribeiro consegue, com a leveza que lhe é própria, refletir sobre temas as vezes temidos e evitados e nos desperta para a importância de viver com presença.
ResponderExcluirObrigado, Joana Dark! Siim... viver a presença...
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